Palavra de especialista: a criança e o faz-de-conta 

 

Pegando carona no post sobre o novo filme Cinderela, e a grande quantidade de crianças (inclusive a minha!) circulando pelos cinemas devidamente trajadas como princesas, resolvi trazer à nossa revista um assunto bastante interessante: a relação dos pequenos com o universo da fantasia. 

 

É comum nos depararmos com princesas e super-heróis, piratas e fadas, bombeiros, personagens de desenhos animados e animais em nossos passeios por shoppings, parques e clubes. Várias pessoas já perguntaram minha opinião sobre o assunto, e nunca me senti confortável para falar com propriedade. 

 

Exatamente por esse motivo, convidei Melka Romano, psicóloga clínica que atende crianças e adultos, além de fazer orientações para escolas e pais, para um bate-papo sobre o assunto, que reproduzo, na íntegra, a seguir. Acredito que ela traga tópicos muito interessantes para entendermos melhor os nossos pequenos e pequenas! :)

 

 

* PFT - A partir de que idade as crianças começam a brincar de faz-de-conta?

 

Melka - A partir de 2 anos, a criança já inicia o interesse pelo faz-de-conta. Pois, nesta idade ela já mostra recursos para abstrair. 

 

Sem a abstração não podemos criar um mundo imaginário. 

Um exemplo bem comum: o desfralde, que acontece perto dos 2 anos e meio, só pode acontecer no momento em que a criança pode abstrair, pode entender que há um xixi na bexiguinha sem precisar ver este xixi.  Antes disso, o xixi só existe no concreto, ou porque molhou a fralda ou porque o desconforto da bexiga cheia foi embora. 

 

Abstração é o pilar para o imaginário.

Enquanto um cachorro só existir porque a criança o vê, estamos no concreto. A partir do momento que a criança pode ser o cachorrinho do desenho em sua brincadeira, estamos no imaginário, no faz-de-conta. E isso ocorre entre os 2, 3 anos.

 

 

* PFT - Qual a importância do faz-de-conta e da fantasia para a criança pequena?

 

Melka - É de uma importância vital!

O brincar, o faz-de-conta, é um exercício que possibilita imaginação, capacidade de planejar, criar conteúdos e regras. Através dele é que a criança pode elaborar seus conflitos, socializar-se, desenvolver-se cognitivo e afetivamente. É o momento que inicia o saber de si.

 

O faz-de-conta prepara a criança para o mundo real. Pois é através do imaginário, dos jogos de imitação, que a criança vai elaborando suas hipóteses daquilo que vê e vive e internalizando o mundo real.

 

Na brincadeira, as cenas são diversas: podemos ver identificações com adultos, regras, conteúdos criativos e conteúdos prontos.  Principalmente, conseguimos localizar  o desenvolvimento desta criança e seus conflitos e soluções. 

 

O faz-de-conta é a ponte entre o mundo real e a fantasia. Logo, a fantasia, é a origem do entendimento do real!

 

 

* PFT - Por que as crianças gostam tanto de se fantasiar?

 

Melka - Porque elas estão brincando e isso dá prazer, pois conseguem elaborar conflitos, desenvolver afetos, vínculos, socializar-se, saber de si e criar recursos para viverem no mundo real.

 

 

* PFT - Esse faz-de-conta é sempre saudável? Há algum momento em que os pais precisam intervir, ou procurar ajuda?

 

Melka - Não, o faz de conta não é sempre saudável. Tem um momento em  que a brincadeira deixa de fazer de conta e passa a ser do mundo real. Como jogos com regras, competições.  Onde o outro passa a ser visto e ocupar lugares nas relações e além deste lugar, merecer respeito e tempo. Não  se morde mais o amigo, conversa-se com ele. 

Isso começa a acontecer entre 5, 6 anos. Dependendo da criança e seu entorno, um pouquinho antes.

 

É importante para o desenvolvimento saudável, que a criança internalize o mundo real ( por isso brincou muito de faz-de-conta). Pois vivemos em sociedade, com regras, normas, responsabilidades e principalmente construções concretas para darmos um lugar às nossa criações. Isso chama-se TRABALHO!  Sim, o trabalho na vida adulta está intimamente ligado a todo este processo de aquisição do mundo real e o potencial que a criança teve em criar, imaginar e produzir. 

 

A criança que tem dificuldade de fazer a passagem do imaginário para o real pode ter dificuldades em colocar sua criação/ produção no mundo. Compromete-se a autonomia.

 

Quando a criança inicia o ensino fundamental, ele por si só já é bem mais regrado e rígido, cheio de limites. É o momento em que ela, a criança, deve conseguir transitar de maneira tranquila no mundo real. 

Se isso ainda for um conflito e prejudicar o desenvolvimento cognitivo e emocional, é hora de procurar ajuda da escola e/ou um profissional.

 

 

* PFT - Algumas mães me perguntam sempre se há problemas em seus filhos vestirem fantasias em situações fora do "momento de brincar", como passeios em shoppings, parques e festas de família, por exemplo. Qual a sua opinião sobre isso?

 

Melka - Não há problema algum. Desde que está criança esteja na idade emocional e cognitiva para isso. Como já disse antes.

Porque o faz-de-conta é toda hora! A criança vive no mundo imaginário. Então, banho é brincadeira, comer é brincadeira, ir ao médico "deveria" ser brincadeira. 

 

Causa estranheza uma criança de 7,8 anos vestida de Princesa Bela no shopping, não? A própria criança rejeitaria esta ideia...

 

 

* PFT - Outra questão que aparece bastante é o limite desse uso da fantasia. Em sua opinião, o que fazer quando a criança não aceita tirar a fantasia, ou mesmo pede para ser chamada apenas pelo nome do personagem no qual está "caracterizada"?

 

Melka - Brincar de faz-de-conta tem algumas funções. Dentre elas, elaborar conflitos e saber de si. Se uma criança não consegue sair da personagem, provavelmente ainda não elaborou o conflito em questão. É respeitoso e atento dar o tempo da criança para que ela elabore e consiga sair da personagem. Neste meio tempo podemos entrar na brincadeira e criar o "banho da Bela", o "pijama da Bela", a "comida preferida da Bela", até a própria criança sair da personagem quando isto não fizer mais sentido. 

 

Quero deixar aqui a indicação de um filme que ilustra bem a função do brincar. 

Com uma leitura bem poética e delicada, este filme invade a relação psíquica do ser humano com o brincar e vice-versa. Tanto numa posição de quem recebe este bem ( que é o brincar) como para quem o tem para dar.... E assim o brincar segue como recurso na vida ( em qualquer idade), herança e amor nas relações - Ponte para Terabítia. (clique aqui para saber mais sobre o filme)