Ah, a culpa...

Sempre trabalhei muito e por muitas horas, dentro e fora de casa. Eu havia acabado de mudar de emprego, e trabalhava mais do que nunca, quando engravidei. Fazia pós-graduação duas vezes por semana, à noite. Moro sozinha com meu marido em São Paulo, ambas as famílias estão longe e, certamente, precisaríamos ser apenas nós dois para dar conta do bebezinho que estaria por vir. O primeiro impulso era jogar tudo para o alto. Deixar tudo em ‘stand by’, e pensar em como retornar à vida profissional apenas depois que o bebê nascesse. Mas essa opção não estava em pauta, considerando nossa condição financeira e mesmo meu jeito muito ativo de ser. Resolvi viver um dia após o outro (mais chavão, impossível...), cuidando dos problemas conforme aparecessem.

A Pietra nasceu em março do ano passado, antes mesmo de eu começar a redigir minha monografia. Fiz muitas orientações em casa, com a pequena mamando. Quando minha licença estava para se encerrar, comecei a fazer a adaptação dela no berçário onde ela ficaria, com apenas quatro meses e meio. Nesse momento, pensei que fosse me sentir culpada. Sou professora e iria deixar minha filha com pessoas estranhas para cuidar dos filhos dos outros, isso não parecia muito natural! No entanto, para minha própria surpresa, em vez de culpa, senti que tudo voltava ao seu devido lugar. Pietra estava sendo muitíssimo bem cuidada em sua escola, e eu estava sendo muitíssimo bem recebida de volta na minha.

Mas nem tudo são flores. Às vezes, alguns compromissos de trabalho ou acadêmicos me fazem voltar a questionar se consigo estar com a Peeps em todos os momentos que ela precisaria. Em maio deste ano, passei três dias num congresso em Uberlândia, e confesso que caí na tentação de trazer milhares de presentes para compensar minha ausência física.

Só que, a cada vez que estou com ela, percebo mais e mais que isso não é necessário. Ela SABE que é amada. Ela se sente amada. Em cada abraço carinhoso, em cada beijo ‘babado’, em cada brincadeira, vejo que consigo equacionar o lado mãe com o lado profissional. Hoje, sei que fiz a melhor escolha. Batalhei muito para ter o emprego que tenho hoje, e certamente estaria muito ressentida se houvesse abandonado tudo. Há mães que fizeram a escolha de dedicação integral e são felizes; elas têm meu respeito e admiração. Mas minha realidade requer que eu ajude a pagar as contas. Ainda assim, tenho momentos preciosos com a minha pequena Pietra. Tento fazer cada minutinho com ela ser especial (mesmo os minutos das broncas!).

Minha filha não veio para ‘bagunçar a rotina’. Ela veio para agregar mais amor, mais movimento, mais devoção e mais curtição. Apesar de sua pouca idade, seguramente digo que ela é minha melhor companheira. E, num cenário desses, onde caberia a culpa?

por Clau Nicolau

Reedição do depoimento enviado

à Revista Pais&Filhos,

em 22 de outubro de 2012.





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