Por que minha filha não precisa saber...

Como jornalista e ser humano, as tragédias das últimas semanas vêm se aglomerando na minha mente, na minha timeline, nos jornais, no meu coração. E, honestamente, não estou sabendo lidar com tantas informações terríveis ao mesmo tempo. 

Mariana. Rio Doce. Japão. França. Síria. Beirute. Escolas fechando em São Paulo. Falta d'água. Violência. Intolerância. Terrorismo. Medo. É tanta energia negativa circulando à nossa volta, que fica difícil manter a mesma vibe das criancinhas felizes o tempo todo. Ficamos mais reflexivos, fechados, tentando digerir o que acontece, entender, relacionar, encontrar explicações. 

 

Sim, notícias ruins acontecem todos os dias, vocês poderão dizer. Há miséria, tristeza e guerra sendo noticiadas diariamente. No entanto, quando um rio inteiro morre aqui do lado de casa, e quando atentados terroristas são noticiados em meio a uma inocente partida de futebol, alguma coisa a mais nos mobiliza. É impossível, diante da magnitude desses fatos, passar os olhos adiante, alienar-se sem um sentimento misto de compaixão, tristeza e, por que não admitir, um certo pavor do que nos aguarda no futuro. 

 

Se essa angústia já é tão intensa para nós, adultos, que muito já vimos e muito também já aprendemos a superar, o que dizer do impacto de informações dessa magnitude para uma pequena criancinha de quatro anos? Como explicar que há gente cruel o suficiente para matar outros seres humanos sem mais nem menos? Que saem de casa com essa intenção? Como contar que, enquanto ela escreve cartinha para o Papai Noel, há milhares de pessoas desabrigadas, desamparadas, sem ao menos ter um copo d'água decente para beber?

 

Posso estar errada. Brincando de Pollyana. Mergulhando na toca do coelho, tal como Alice. Não importa. O fato é que sim, quero deixar minha filha ter o direito de ser ingênua. De acreditar na humanidade. De ser inocente, brincar, acreditar em fadas, princesas, magia, e que a coruja dela vai chegar com a carta para Hogwarts a qualquer instante. De sentir que está segura, ainda que isso seja uma ilusão.

 

Qual o impacto de se conhecer a tragédia na pele quando se tem quatro anos e se perde um ente querido? Pai, mãe, escola, cidade inteira? Não consigo mensurar. 

 

Em janeiro desse ano, durante nossa viagem a Nova Iorque, visitamos o local onde antes estavam as Torres Gêmeas. Relutei muito em ir até lá - mesmo como adulta, e mesmo estando do outro lado do continente americano, esse atentado reverberou em mim de uma maneira muito intensa. Um amigo perdeu seu pai nesse dia. Mas resolvi ir, conhecer, prestar uma homenagem. 

 

Se foi o frio, a chuva, o "peso" do local, não sei. Mas contamos para a pequena - de forma MUITO resumida e a poupando de maiores detalhes - o porquê de ter aqueles "buracos" (para usar uma palavra dela) ali. Ela ficou em choque. Abraçou o pai, derramou umas lágrimas sentidas, nos emocionou. Fez perguntas. Para nós e para ela mesma. Não quis ficar correndo, brincando, como em todos os outros lugares que visitamos. Seu semblante era de medo e de muitas questões - "mas por que as pessoas fizeram isso com as outras? Esses homens eram maus?"... Ficamos, os três, arrasados, e não tivemos a menor coragem de sequer passar na porta do Museu do 11 de setembro. Não precisava de mais nada. Apenas de colo e um abraço.

 

A vida ainda vai mostrar para ela, infelizmente que existem "pessoas más". Que seres humanos inocentes são mortos diariamente. Que não estamos seguros. 

 

Mas por enquanto, ao menos por agora, ela não precisa saber. Ela pode, apenas, ser criança. 

 

* Esse texto foi inspirado no artigo "Why I'm not ready to talk to my daughter about tragedies", de Sarah Bregel. Ainda não havia escrito uma linha sequer sobre o assunto, mas hoje precisei comentar. Por mim. Por ela. Por tudo o que ainda iremos passar.

 

por Clau Nicolau - 16 de novembro de 2015