"Isso é de menino... Isso é de menina..." Será?...

 

 

Há algumas semanas, minha filha me fez um pedido de brinquedo (mais um entre os milhares de pedidos cotidianos, que vão desde pequenos gravetos jogados pelo chão a viagens para a Argentina e New York...). Estávamos numa maré péssima emocionalmente, e pensei que comprar um jogo com o qual pudéssemos passar um tempo de qualidade juntas não poderia fazer nenhum mal (até porque não era caro). 
Ela me pediu cartas do Pokémon

Quando chegamos à loja, a vendedora perguntava: "mas é para presente? É para seu priminho? Seu amiguinho?"... E Peeps, com aquela calma que lhe é peculiar... "Não, é pra mim, mesmo." A vendedora não falou mais nada. Olhou para mim de um jeito super estranho, nos acompanhou até o caixa e teve que conviver com o fato de que minha filha não preferiu uma Polly, nem o baralho das princesas, nem a caneta da Frozen que ela insistia em tentar "trocar". 

 

Esse é apenas um dos vários exemplos pelos quais já passamos, ao comprar brinquedos rotulados como "de menino" para nossa pequena de quatro anos e meio. E sei que não estamos sós. Participo de alguns grupos de Facebook destinados à discussões sobre maternidade, e não raras vezes vejo mães de meninos aborrecidas por só encontrar panelinhas, cozinhas e outros elementos para brincar de casinha cor-de-rosa, como se tudo fosse "off-limits" para eles. E quando o assunto é fantasia, então... Os tabus se apresentam de forma mais "gritante". Afinal, não é normal que meninos usem vestidos e meninas delicadas andem por aí com aquelas fantasias musculosas de heróis. Meninos são fortes, meninas são frágeis. O azul e o rosa. O carrinho e a princesa. 

 

Felizmente, vemos que esses paradigmas começam a ser quebrados. Em um dos grupos de Facebook, lancei a questão sobre brinquedos e gêneros ontem. Não apenas várias mães se pronunciaram favoráveis à diversidade de experiências e brincadeiras entre seus filhos e filhas, como algumas inclusive cederam gentilmente imagens de seus pequenos se divertindo muito com adereços e brinquedos que, antigamente, seriam destinados exclusivamente a crianças do gênero oposto. 

 

Evelyn Fontaine, mãe participante do grupo, trouxe reflexões que contribuíram bastante para a discussão que já se iniciava. "Na minha concepção de mãe e educadora, nenhum brinquedo tem gênero. Crianças conhecem e reconhecem o mundo através da brincadeira... Pra elas, o brincar possibilita experimentar tudo... O papel de pai, de mãe, de professora, de médico, de advogado, de açougueiro, enfim... Assim, ela traduz suas angústias, conflitos, vontades.... E além de tudo: aprende. Tudo começa e termina na brincadeira. Dito isso, influenciar na escolha de brinquedos, tolhendo seu livre arbítrio nessa área frustra a criança e faz com que perca oportunidade de aprender. Limitar o acesso dos brinquedos por questões de gênero acaba ensinando a crianças, desde muito cedo, um preconceito que está sendo cada vez mais combatido nos dias de hoje (graças a Deus). O tipo de brinquedos que a criança brinca nunca, jamais irá influenciar na sua sexualidade. Pensar esse tipo de coisa é ignorar anos de pesquisa. Ou seja, vamos deixar nossas crianças serem felizes e aprender através dos mais diversos tipos de brincadeira ao invés de criar estereótipos que embrutecem os seres humanos desde de muito cedo."

 

Maria Fernanda Gomes Capellato, mãe de um menino e uma menina, também concorda com nossa posição, e deixou seu depoimento: "Hoje mesmo estava pensando nos presentes de dia das crianças e, como mãe de uma menina e um menino, vejo eles brincarem o tempo todo juntos, independente de gênero. Quando o Pedro quer uma fantasia ou uma tiara, por que não deixar ele usar? Eles dividem bonecas, carrinhos, cestinha de legumes, fogão... Depois colocam capas de super herói e saem correndo pela casa. O que vale é vivenciar experiências diversas e serem felizes o máximo possível!"

 

Houve também quem dissesse que os pais não aceitam muito essa "novidade". Respondendo à questão "brinquedo tem gênero?", Ana Cecília Almeida comenta: "eu acho que não e travo uma luta diária com meu marido. Minha filha mais nova simplesmente ama cavalos, cowboy e adora o Woody e ele comprou a Jessie pq na cabeça dele não pode ser o Woody. E adivinha? Ela não liga muito."

 

E aí alguém pode me perguntar... "E quem pensa o contrário? Você não vai dar voz a essas pessoas?"...

Bom... Ninguém se pronunciou... Apenas uma ressalva foi feita quanto ao uso de maquiagem pelos meninos (mas aí já implica em outra discussão, inclusive, sobre o uso de maquiagem por crianças de modo geral... Mas é assunto para um outro post!). 

 

Por um lado, numa sociedade em que muito vem se discutindo sobre a imposição de papéis a crianças de acordo com o gênero de seu nascimento, há uma tendência a não se contrapor. Por outro lado, as lojas de brinquedos continuam a categorizar... Legos e Playmobil da vida continuam a ser separados entre rosa para meninas e todas as outras cores do arco-íris para meninos... Não há dúvidas que se trata de algo que ainda precise de um tempo - e muita discussão, muita reflexão, muitos estudos de mercado - para ver novidades nesse sentido. 

 

Em abril desse ano, estive na Abrin, a feira de brinquedos que mostra os principais lançamentos para o ano desse segmento. Perguntei em vários stands o porquê de só haver objetos de casinha/comidinha cor-de-rosa. A resposta: "só as meninas compram...". Será?... Fiquei com vontade de conhecer essas pesquisas de mercado e perfil de compra. Ainda não tive acesso a nenhuma delas; talvez eu mesma encampe uma qualquer dia desses (por que não?).

 

O dia das crianças se aproxima. Na hora de comprar uma lembrancinha para seu pequeno - seja filh@, sobrinh@, vizinh@, etc e tal -, pense se vale a pena se ater aos rótulos se tudo o que a menina deseja é um Darth Vader para chamar de seu; ou se o menino quiser um ferro com tábua para passar roupas. "E se for rosa???" Ué, é só uma cor. Por que não comprar?...

 

Encerramos (?) nosso post com uma galeria de crianças lindas com brinquedos que amam e fantasias que as divertem. Porque, para as crianças, não existe a "convenção social". Existe a vontade de criar, de entender o mundo à sua volta, de brincar, de se divertir, de partilhar momentos gostosos com outras pessoas. Tem alguma foto da cria e quer ver aqui também? É só mandar que a gente coloca!!! Quanto mais crianças lindas para mostrar aos adultos que o pré-conceito está apenas na cabeça deles, melhor!! ;)

 

por Clau Nicolau - 30 de setembro de 2015

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Malu, 5 anos, filha da Tatiana Ribeiro de Carvalho, ama o Batman, Bob Esponja e dinossauros. A mãe aprova: "Aqui o que vale é a vontade dela! Criança tem que ser livre e brincar!"

Clara, filha da Liana de Andrade, fantasiada de Capitão América (aliás, um dos heróis preferidos da Peeps!). 

Pedro, filho de Maria Fernanda, com o vestido da irmã. A foto, postada pelo pai em redes sociais, não foi bem aceita. "O papaizão não pensou duas vezes em colocar a fantasia da irmã no Pedro! E choveram críticas!"

Ruy, filho da Anna Carolina Cabral Guimarães, se fantasiou de Minnie e Batman na escola. A mãe conta que ele "adora fazer comidinhas em cuidar das nenéns". 

Peeps vontando do ballet com seu Homem de Ferro. Também já voltou do futebol com bonecas, transformou o castelo da princesa em cenário de guerra de Gogos...