E quando eles se machucam?...

Estivemos "fora do ar" por algumas semanas, e não foi à toa...

Não, não tivemos um "bloqueio artístico", nem desistimos de tornar o mundo um pouquinho mais fashion com nossas dicas... Tampouco foi o frio, que congelou nossos dedinhos e neurônios criativos - porque vêm da friaca muitos dos outfits mais encantadores!...

O que nos "travou" foi uma quedinha boba. De um sofá baixinho. Num encontro de família... Que se transformou numa fratura de clavícula.

Essa não foi a primeira incursão de Dona Peeps no universo do PS de Ortopedia e Trauma. Aos oito meses, uma queda do carrinho resultou num traumatismo craniano - susto muito mais aterrador do que esse de agora, mas que rapidamente foi resolvido. Em menos de uma semana, estávamos num avião rumo a Buenos Aires, apenas com um olho roxo e uma história pra contar.

Agora, ela é mais crescida. Sabe se queixar de dor, mas também das limitações de movimento. Reclamava do "banho de gato", queria lavar os cabelos no chuveiro e colocar quaisquer roupinhas - não apenas com botões e zíperes. Queria subir no sofá, descer do sofá, pular no sofá, rodar até ficar tonta e se estatelar de bumbum no chão... E a neurótica que vos escreve tolhendo cada movimento, pegando no colo, colocando almofadas pela casa (sem brincadeira alguma!).

E aí eu me pergunto: se já tinha o diagnóstico... Se o médico me disse que, nessa idade, fratura de clavícula "cola até com cuspe" (sic, apesar de "eca"... rssss)... Por quê, minha nossa, por quê de tamanha neurose?

Acho que, quando eles se machucam, nossa sensação de falta de controle chega num grau que realmente percebemos que nada é controlável. Aquela ilusão que temos enquanto eles são pequenos, de que os protegemos de tudo, de que somos zelosas e que nada além de um arranhão ou um joelho roxo vai acontecer... Se esvai num piscar de olhos.

Corta o coração dizer, manhã após manhã - porque noção de tempo é algo que passa bem longe de uma criança de dois anos e cinco meses - que ela ainda precisa da tipoia. Que não pode ir ao ballet, nem ao "circuito lúcio" (circuito lúdico na língua da Peeps), que não pode ir ao parquinho para subir nos seus amados brinquedos de se pendurar. Que precisa de ajuda pra se vestir, que deve ter cuidado, que "PELO AMOR DO SANTO CRISTO, COLOCA ESSE BRAÇO NA TIPOIA, MENINA!!!!!!".

Quando eu tinha três anos e meio, sofri uma fratura exposta no cotovelo assim, também. Num tombo bobo, dentro de casa, em pleno domingo de Páscoa. Fiquei três meses indo e vindo do hospital, entre cirurgias e consultas, e mais seis meses na fisioterapia diária. Lembro-me de meus pais contando, com um visível sentimento de culpa, que eu tive de abandonar a escolinha, porque não podia de jeito nenhum mover o braço ou levar qualquer tombinho nos três meses até minha "alta" completa.

E quero "me matar" de vergonha, por morrer de culpa pela pequena não poder ir ao ballet por um mês, tendo feito apenas duas aulas - mas duas aulas recheadas de empolgação, diga-se de passagem.

Não, a gente não consegue protegê-los de tudo. Não protege dos tombos, das fraturas, das pequenas frustrações cotidianas, da chuva, da gripe, da bolha no pé, de um coração partido.

E isso devasta a gente, por mais óbvio e ridículo que seja.

O que me consola, ao final de tudo isso, é perceber que, na verdade, o drama é todo meu. A guria, protagonista do "acidente de percurso", que anda de tipoia todos os dias, vive sorrindo e cantando pelos cantos tanto quanto antes. Burla as recomendações médicas e maternas, saltitando e rodanto o tempo todo. Reclama que não vai ao ballet, mas se contenta com um "você vai ver, vai passar rapidinho". Come, abraça o cachorro, vai ao shopping, pede bolo de chocolate, faz pirraça, se joga no chão, pede desculpas e dá um beijo... Tal como antes. 

O drama é meu. Então, por que não abandoná-lo?...

 

por Clau Nicolau - 18 de agosto de 2013

 

 

Minha pequena, horas antes de fraturar a clavícula... Logo passa!!!

 

Camisa xadrez Zara, bermuda jeans Oshdosh. Pés descalços, a areia tava uma delícia!!! :D